Importância histórica

  No decorrer da história do domínio português sobre o Brasil foram muitos os motins, conspirações, revoltas e rebeliões em praticamente todos os pontos  do território colonial. Mas o primeiro movimento a realmente manifestar com clareza suas intenções de romper com os laços do colonialismo ocorreu em Vila Rica, na capitania das Minas Gerais, entre 1788 e 1789. Ao contrário de movimentos anteriores, que muitas vezes não passaram de reivindicações mais restritas, a chamada Inconfidência Mineira pretendia, sobretudo, a independência do Brasil em relação a Portugal.


  A partir do século XVIII, a região de Minas Gerais, a mais rica do Brasil, passou a sentir cada vez mais duramente as restrições e a violência da situação colonial. Durante muitas décadas o ouro brasileiro havia chegado em grandes quantidades aos cofres portugueses, mas agora esse fluxo começava a diminuir. O quinto já não bastava para satisfazer as necessidades da Coroa, e os portugueses queriam mais. Ao mesmo tempo, uma série de restrições econômicas, como o Alvará de 1785, de D. Maria I, a Louca, paralisava a vida na colônia, obrigando-a a viver sem indústrias e a importar tudo que consumia. O domínio colonial português estrangulava o dia-a-dia dos brasileiros. 
  Foi neste contexto de queda na extração aurífera que o Visconde de Barbacena assumiu, em 1788, a administração da capitania de Minas Gerais. O novo governador vinha com a tarefa de executar a derrama.
  Os homens mais ricos das Minas sabiam que perderiam suas fortunas quando o governador deflagrasse as medidas para cobrar os impostos acumulados pelos contratadores (que somavam 538 arrobas de ouro, aproximadamente 8 toneladas do metal). O fantasma dessa cobrança aterrorizava até mesmo a população mais pobre, pois o imposto incidia sobre todos. 
   Os grandes devedores criticavam o governo por ignorar o esgotamento das jazidas e pela falta de técnicos e recursos para extração de ouro em minas escavadas em rochas, mais dificeis de explorar. Assim, alguns membros da elite mineira começaram a esboçar um projeto de ruptura com o pacto colonial e com a própria metrópole portuguesa. Os conspiradores pretendiam instituir uma república na região das Minas Gerais (onde a capital seria transferida para São João del Rei, localizada numa área mais favorável para expansão da agricultura e pecuária, atividades econômicas que o novo país potencializaria em virtude da decadência da mineração) criar manufaturas e fundar uma universidade em Vila Rica (em decorrência da mudança da capital, que tornaria Vila Rica um cidade universitária). O plano também previa o perdão de todas as dívidas com a Coroa e a liberação do Distrito Diamantino para toda a população mineira. (A articulação do movimento-PDF)
  Um debate interessante foi mantido em torno da bandeira, símbolo do país dos inconfidentes. Alvarenga Peixoto, segundo testemunhos, queria a figura de um índio rompendo as cadeias da opressão. Tiradentes defendia um símbolo triangular, representativo da Santíssima Trindade, com uma cor forte (vermelho) em fundo branco. Ambos concordaram com a inscrição do início de um verso do poeta Virgílio: "Libertas, quae sera tamen" - Liberdade, ainda que tarde.
  O nome do novo país, porém, não ficou decidido, porque a maioria dos conjurados queria antes saber até que ponto o Brasil estava disposto a livrar-se do domínio português. Independente da adesão de outras regiões, esperavam   que o movimento se refletisse no Rio de Janeiro, provocando o levantamento da população da capital. Se tal não acontecesse e viessem tropas do vice-rei para Minas, pensavam ser possível detê-las por uma guerra de emboscadas. O comando caberia, possivelmente, ao sargento-mor Luis Vaz de Toledo.  
  Entre os conspiradores havia também um personagem diferente, pobre, sem recursos materiais, praticamente autodidata, um simples alferes da Cavalaria chamado Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes. Não tinha nenhum poder, visto que sua riqueza era inexistente, não foi um grande poeta, ou um grande teórico, nem conhecia profundamente as obras clássicas de sua época, mas era possivelmente o único, dentre todos os conspiradores, que possuía as qualidades de grande agitador, as condições para ser um líder popular expressivo, capaz de levantar o povo e leva-lo a insurreição.
 O movimento também reunia os poetas Cláudio Manuel da Costa, José Alvarenga Peixoto e Tomás Antônio Gonzaga, o advogado José Álvares Maciel, o médico Domingos Vidal de Barbosa e o cônego Luís Vieira da Silva.
  Alguns desses homens estudaram na Europa, onde entraram em contato com as ideias iluministas, que criticavam o absolutismo monárquico e a falta de liberdade. A filosofia iluminista, colocada em prática na independência dos Estados Unidos, ajudou a inspirar os revolucionários.
  O inicio do levante foi marcado para o dia previsto da derrama. Um fato imprevisto, porém, destruiu o plano dos conjurados. Joaquim Silvério dos Reis, convocado para quitar os impostos atrasados, denunciou seus companheiros em troca do perdão de suas dívidas.
    
  A partir disso, os envolvidos foram presos e abriu-se um inquérito para apurar os fatos. Onze conjurados foram sentenciados à morte pelo crime de inconfidência, mas a pena capital só foi aplicada a Tiradentes. O alferes foi enforcado e esquartejado em 21 de abril de 1792, e seus restos mortais foram expostos em Vila Rica e no caminho entre os atuais estados de Rio de Janeiro e Minas Gerais (Mais detalhes em O que aconteceu com os inconfidentes)


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