O que aconteceu com os inconfidentes

  Feitas as prisões necessárias, Barbacena começou a despachar os presos para os cárceres do Rio de Janeiro. Por ordem do vice-rei, D. Luís de Vasconcelos, já havia sido aberta uma devassa na capital da Colônia. Logo em seguida, por determinação de Barbacena, outra devassa foi iniciada em Minas. Isso seria um martírio a mais para os prisioneiros, pois entre esses dois processos houve conflitos de jurisdição, com funcionários torcendo os fatos e competindo entre si. O resultado de tal procedimento foi o prejuízo das investigações e uma lentidão incrível no processo.
  Isolados, privados de tudo, atirados em cubículos imundos e escuros em diferentes prisões, os inconfidentes relataram tudo que sabiam, imputando, em geral, a culpa maior sobre Tiradentes. Em Vila Rica o governador torceu e retorceu o inquérito, com a finalidade de fazer "desaparecer" dos autos alguns magnatas que conseguiram comprar sua proteção. Por isso, antes da chegada dos magistrados enviados pelo vice-rei, o governador e seus aliados trataram de apresentar uma devassa capaz de omitir nomes e simplificar as coisas. Foi nesse contexto, no qual não faltaram torturas e violências físicas, que morreu o poeta Cláudio Manuel da Costa. Preso numa cela improvisada num cubículo da casa de João Rodrigues de Macedo, Cláudio foi encontrado morto no dia 4 de julho de 1789. Barbacena apresentou o fato como um "suicídio", mas a verdade é que o poeta, já velho, fraco e assustado, havia prestado dois dias antes uma longa confissão aos funcionários do governador, onde apontava como implicados na conspiração os homens que Barbacena queria proteger.

  Todo o desenvolvimento do processo e a montagem do julgamento foi apenas uma longa avaliação política da situação feita pela Coroa. Desde julho de 1790, Lisboa já sabia o que fazer com os prisioneiros mineiros. Principalmente com o "alferes louco", que em seus depoimentos perante os juízes não só admitiu toda a culpa pela liderança do movimento, como continuou afirmando que acreditava em tudo que fazia. Para a Coroa ele seria um perfeito exemplo para outros colonos descontentes tentados a rebeldias. Um julgamento-exibição, seguido pela execução pública de Tiradentes, proporcionaria, como advertência, um grande impacto na Colônia, ao mesmo tampo que minimizaria e ridicularizaria o objetivos do movimento . Afinal, quem poderia levar a sério, pensava a Coroa, uma rebelião integrada por homens importantes, cultos e ricos, mas liderados por um simples alferes, demente e pobre?
  Somente no dia 18 de abril de 1792 o trágico espetáculo foi chegando ao fim. Os primeiros réus começaram a receber suas sentenças Em seguida, na madrugada do dia seguinte, os meirinhos entraram na cadeia com as sentenças para os outros. No total, as devassas pronunciaram 34 pessoas, sendo cinco padres e três já falecidos. Dez réus, além de Tiradentes, foram condenados a forca, outros banidos em degredo perpétuo e alguns condenados a serem chicoteados em público. Depois, dramaticamente, como fora planejado pela Coroa, foi lida pelos juízes uma carta de clemência da rainha. Todas as sentenças, exceto a do alferes Joaquim José, foram suavizadas e transformadas em banimento para a África. Muito choro tomou conta da sala onde estavam os réu, ouvindo-se até mesmo vivas a D. Maria I, a rainha louca de Portugal.
  Tiradentes foi executado num sábado, dia 21 de abril de 1792, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, capital da Colônia. Foi o maior espetáculo já visto na cidade, onde não faltaram procissões, casas e ruas enfeitadas com panos coloridos, centenas de soldados em uniformes de gala, clarins, tambores, sinos repicando e um enorme patíbulo, com 24 degraus montados até a forca. Tudo isso para que a Coroa demonstrasse o seu domínio absoluto sobre a Colônia brasileira. (A execução de Tiradentes-PDF)
  Enforcado e esquartejado no Rio de Janeiro, Tiradentes teve as artes de seu corpo pregadas em postes pelos caminhos de Minas Gerais, onde fez suas pregações. A sentença da Alçada mandou que a cabeça do alferes fosse cortada e exposta na praça do Palácio. Ali, entretanto, ela ficaria muito pouco tempo. Apesar da vigilância dos guardas, registrou-se um novo ato de desobediência ao governo de Portugal: misteriosamente a cabeça de Tiradentes foi roubada e nunca mais apareceu...

  (...) Portanto condenam ao Réu Joaquim José da Silva Xavier por alcunha o Tiradentes Alferes que foi da tropa paga da capitania de Minas a que com baraço e pregação seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca e nella morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Villa Rica onde em lugar mais público della seja pregada, em um poste alto até que o tempo a consuma, e seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes, pelo caminho de Minas no sitio da Varginha e das Cebolas aonde o Réu teve as suas infames, e seus filho e netos tendo-os, e seus bens applica para Fisco e Camara Real, e a casa em que vivia em Villa Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e não sendo própria, será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados, e no mesmo chão se levantará um padrão, pelo qual se conserve em memória a infamia deste abominável Réu (...)
Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, v.7, p.109

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